Percepção Aleatória de um Italiano Perdido nas Ruas do Rio de Janeiro Durante o Carnaval

1 – sempre tem alguém mijando perto de você;

2 – um cheiro de alfazema – ou lança perfume – emana do asfalto;
3 – você pode tentar desviar, mas sempre tem um bloco perto de você;
4 – o prazer masculino é sair vestido de meretriz, com trejeitos afetados e batom borrado, aproveitando a ocasião pra beijar outros companheiros machos que também se deleitam com a fantasia coletiva ortodoxa nesta época tão peculiar;
5 – não precisa de dinheiro pra ficar bêbado;
6 – você pode estar nu, exceto por um lenço na cabeça, e sair por aí dizendo que está fantasiado de pirata – fazendo, inclusive, sucesso com a fantasia;
7- sempre tem alguém pronto pra receber uma cantada esdrúxula em nome de uma boa sacanagem;
8 – se for um personagem, pode tudo;
9 – já dizia o Bowie: ‘I’m not sure if you’re a boy or a girl’, mas ninguém tá nem aí (Rebel, Rebel);
10 – o que acontece no carnaval morre na quarta-feira de cinzas.

Atom Heart Mother

Pink Floyd - Atom Heart Mother

Tinha uma vaca no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma vaca

Mas, oh! animal imenso
Que me ocupa por inteiro
No carrapato de seus pêlos
E na melancolia de seu olhar
Tenha piedade dos pequenos
Que a ti enxergam feito coração de mãe
Macio e suculento
Saciável
Podendo ser bem ou mal passado

Mas, oh! criatura bíblica
Que alimenta os acanhados com o suco de suas tetas
E nos ensina o silêncio contemplativo
O zen budismo de seus verdes pastos
Mantendo sempre o lânguido olhar
De quem espera a morte e diz:
- não é isso que fazemos?
O pasto é seu destino
E virar grama o de todos nós

Amém

Ilusões

Quando criança, viajando no banco de trás de um Fiat quadrado, bem aos moldes da época, gostava de observar os postes e suas fiações ao longo das rodovias. Bastava concentrar o olhar no vertical da fiação e tudo ganhava movimento. Os planos moviam-se aleatoriamente e as montanhas, ao fundo, permaneciam semi-estáticas, demorando tanto pra concluir um movimento que não tinha outra saída senão observar atento suas sutilezas. Depois descobri que nada daquilo estava em movimento, exceto o carro, que produzia essa falsa sensação que tomava minha atenção por horas. Oitenta anos depois e continuo com a sensação de que certos movimentos expressivos não passam de ilusões. E a única coisa que realmente se movimentava era a tal montanha inexpressiva. Essa vem sofrendo mutação desde os primórdios. Penso no cotidiano e nas sutilezas que demoram a serem percebidas. Penso nessas coisas de gente velha que sente saudade de fazer nada no meio de tantos movimentos. Saudade de ficar estático, quando eu ficava acordado vendo algumas ilusões adormecidas no meu peito.

- look back in anger -

É o Bowie que veio me buscar. E a agulha não para de arranhar a sentença do ceifador.

“You know who I am,” he said
The speaker was an angel
He coughed and shook his crumpled wings
Closed his eyes and moved his lips
“It’s time we should be going”

promessa

Ano novo, velhos hábitos. Sou velho e cheio de manias. Loquacidade pra 2007! E tenho dito.

Dia 1

Como de costume, acordo às 7:00 e preparo o café. Sento-me sozinho na mesa de dois lugares e inicio o meu desjejum com um cigarro e uma xícara de adrenalina. Penso numa existência menos insignificante, me arrependendo da desistência de matrimônio e da recusa para trabalhar como coveiro. Odeio aniversário. Se ao menos eu recebesse uma ligação. Lembro-me, quando jovem, de ter projetado metodicamente o meu futuro: eis o meu maior arrependimento. Se tivesse agido instintivamente talvez alguém ligasse para me dar os parabéns. A pior coisa dos planos é quando eles dão certo e você não sabe o que fazer. Aos 40 anos concluo que toda a organização que elaborei foi para ampliar a minha desocupação mental. E desde então virei um profissional independente que não consegue se ver livre de si mesmo. Não lembro do meu ultimo aniversário. Não entendo a insistência que meu subconsciente repete descontinuamente todas as manhãs quando sento para tomar o meu café e inalar nicotina. Hoje não é o meu aniversário e não tenho mais nada para lamentar. Seria bom ter alguém por perto pra falar do tempo. Hoje está frio e a minha garganta dói. Acho que vou arrumar uma tartaruga para tomar café comigo. Comprarei alface e farei do quarto de empregada seu lar. Talvez um hamster. Preciso me preparar para a jornada dantesca ao inferno. No caminho, algumas conveniências. Parado no semáforo sou abordado por um senil, que insiste que pareço com um ator de novela. “Meu senhor, eu não assisto novela”. Ignoro a existência alheia e sou despertado por uma mini-saia. Queria ser menino nos dias atuais. Na minha época mulher nenhuma andava com as pernas de fora e eu era obrigado a imaginar o que havia debaixo do vestido. Lembro-me de desenhar uma geometria surrealista e mentir para os colegas afirmando que o paraíso era daquele jeito, pois eu havia estado lá. Contendo o entusiasmo, consigo atravessar a rua. Enquanto ando, sou vigiado por militares e subversivos. Alguns me indagam com desconfiança e outros me instigam como aliado Decido ir caminhando até a Cinelândia, entrando na Rua da Lapa só pra ver os vagabundos se divertindo. A minha culpa em néon destaca o ser deprimente que me tornei, mas me ignoro. Não me identifico com a esquerda, direita, nacional ou estrangeiro. Só quero ver a escória brigando por um copo de pinga e transando no meio do pavimento. Consigo, então, chegar no local de trabalho. Antes de entrar no prédio sou atormentando pelas cordialidades impostas pelo cidadão exemplar do diabólico plano metódico que rege a minha vida. Penso no leão de chácara e nos encontros com os colegas no elevador. Direi bom dia e mentirei sobre a minha família. Criarei um plano para as férias, só pra despertar inveja nos camaradas. Congelo um sorriso calunioso e escancaro um bom dia ao porteiro, que muito confuso me lembra que hoje é feriado. Hoje é feriado! Finjo que tinha esquecido tal data. Descobrimento do Brasil. “Que dia é hoje mesmo?”. Esbanjando ingenuidade digo adeus ao gentil porteiro e saio do prédio contente com o meu êxito. Ainda são 9 da manhã. Deveria ter planejado uma mentira que me ocupasse o dia inteiro.

Samba 1: Luto da Morena

- refrão -

Ah que bela morena

Minha vida condena

Me injuriou

Alegria não existe

Eu que ando sempre triste

Já nem sei o que é dor

.

Eu que era fiel

Feito um cão adestrado

Vivo em lamentações

E arrependimentos

De um passado glorioso

Que caiu no esquecimento

E assim fui esquecido

Por ela que já não vive

Pra recordar nossos momentos

.

Peço a São Sebastião

São Jorge, Santa Rita

Santo Antonio, São José

São Pedro e Aparecida

Pra que faça um milagre

E dissipe minha tristeza

Que eu cure o meu luto

Que eu volte a ver beleza

eco

Vivia preso na inexistência inexorável que legitimava todo o seu existir. ‘Se não existo, não preciso’. E seguia vivendo. Distante. Próximo. Como era de convir um ser que não existia. No entanto, estava ali. Ninguém o via, mas estava. Jazia. Circulando feito labareda de fogo alimentado por pensamentos que nos remetem aos primóridos de qualquer coisa. Do inexistente que carregamos e criamos histórias. De nossas histórias. Não entendia o tempo que, aos poucos, apagava todos os seus vestígios. E logo ele seria o apagado do tempo. A inexistência era um caminho inevitável. Deixou de existir de antemão. Antes de o tempo determinar seu ponto exato de não ser. Antes dos sete palmos marcados para perpetuar seu existir. Materializou o seu haver e foi mais rápido que o tempo. Lembro de atravessar a Rio Branco e esbarrar numa figura sem rosto que, como se retrucasse meu pensamento vago em salas sem mobílias e sons silenciosos, me disse no pé do ouvido:

- E você? Existe?

.0

Dias que eu acordo com a certeza de que foi um grito. E foi um grito! Histérico. Interno. Pontiagudo. E que na verdade nem é um grito. Um suspiro! Desses que me empurram da cama em busca de vestígios de um passado ancestral que não sai das minhas lembranças. E não me deixa dormir. Suspiro esse que tem nome e um gosto todo seu para escolher as palavras cantadas num momento de silêncio. Imutável, eu com palavras cantando ao meu redor. Grito esse que ecoa perdido no tempo. No meu tempo particular. No tempo do mundo. Ambos nunca estão em sintonia. Dias que eu acordo trocando meu realejo pra ouvir novamente sua história. Aquela do rancho, quando sua família depenava galinhas e você ficava com pena. E foi quando o mundo se tornou as coisas que lembram você e as que não lembram. Eis a divisão e a dor no coração. Histérico, me acordando no meio da noite pra lembrar você.

Davi & Davi - Parte 3

Não era ninguém. O próprio ninguém personificado e jogado no mundo. O genuíno Davi qualquer coisa que começa e termina em si. Reconheceu a caligrafia nas anotações pessoais espalhadas pela casa, no meio da bagunça, no outro lado da geladeira esboçando uma lista de compras. Davi pensou no Ricardo inexistente que poderia ter sido. O poderia que tantas vezes atribuiu a experiências físicas e metafísicas como solução de problemas, mas que agora não se lembrava de nada. Apenas sentia um desconforto no peito. Um batimento cardíaco acelerado que denunciava qualquer coisa maior do que ele mesmo. Maior do que qualquer capacidade racional ou perda de memória. Maior do que o Ricardo idealizado que ocupava toda a sua existência. Maior do que qualquer universo infinito. E Davi sorriu pensando na experiência relatada no bilhete. Lembrar é outro assunto. Mas sentiu! E isso pedra nenhuma poderia apagar de seu peito, que batia mais afoito pela necessidade da resposta que não tinha pergunta. E a pergunta não cala até que a morte separe consciência e corpo. Davi era um corpo consciente em busca de seu íntimo perdido no tempo-espaço em que exerceu sua existência.

Seu caso não tinha jeito. Davi jazia perpetuo na lembrança viva e morta de sua própria consciência. Mais ou menos o que fazia antes da pedra com coisas que preferia esquecer. Não esquecia, de fato. Mas apagava, ilusoriamente, de sua mente. Nem todos têm a mesma sorte de Davi com uma pedra real que vai jorrar sangue pra renascer. Pedras metafóricas causam um estrago muito maior. Estão atreladas a inúmeras partículas de existência que buraco nenhum consegue absorver. Igual a todas as vezes que somos obrigados a construir uma estrada de asfalto pra continuar andando na rua de chão. Sim! Davi caiu involuntariamente. E involuntariamente era o seu coração, que com o cérebro delimitado continuava a bater afoito por alguém, sem ao menos saber quem. Ausente de gênero ou qualquer construção. Mas não batia em vão. E a prova estava presa na porta da geladeira, feito um mausoléu num cemitério pregando um epitáfio desconhecido, mas que causa tamanho deslumbramento quando se percebe que o morto é centenário e as palavras permanecem. E permaneciam, ecoando na mente vazia de Davi, que implorava por um preenchimento pra acabar de vez com o eco que não silenciava.

E inúmeros telefonemas, batidas de porta e encontros ocasionais com estranhos conhecidos. Ora, Davi recuperou a vida e chegou à morte. Conseguiu se adaptar ao auto-redescobrimento, ainda que forçado. Ainda que esperançoso. Ainda que receoso de encontrar mais um Davi na multidão. Não desejava ser como os outros. E não era. A pedra no meio do caminho era empírica. Mas o eco nunca silenciou na sua cabeça. E não silenciaria, mesmo se não tivesse tropeçado. Só adquiriu outra forma. Corações vagabundos que querem guardar o mundo em si não têm cura. E não sobra Ricardo pra contar a história.

Para Ricardo…

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