Percepção Aleatória de um Italiano Perdido nas Ruas do Rio de Janeiro Durante o Carnaval
Published February 17, 2007 velho elefante 2 Comments
Tinha uma vaca no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma vaca
Mas, oh! animal imenso
Que me ocupa por inteiro
No carrapato de seus pêlos
E na melancolia de seu olhar
Tenha piedade dos pequenos
Que a ti enxergam feito coração de mãe
Macio e suculento
Saciável
Podendo ser bem ou mal passado
Mas, oh! criatura bíblica
Que alimenta os acanhados com o suco de suas tetas
E nos ensina o silêncio contemplativo
O zen budismo de seus verdes pastos
Mantendo sempre o lânguido olhar
De quem espera a morte e diz:
- não é isso que fazemos?
O pasto é seu destino
E virar grama o de todos nós
Amém
É o Bowie que veio me buscar. E a agulha não para de arranhar a sentença do ceifador.
“You know who I am,” he said
The speaker was an angel
He coughed and shook his crumpled wings
Closed his eyes and moved his lips
“It’s time we should be going”
Ano novo, velhos hábitos. Sou velho e cheio de manias. Loquacidade pra 2007! E tenho dito.
- refrão -
Ah que bela morena
Minha vida condena
Me injuriou
Alegria não existe
Eu que ando sempre triste
Já nem sei o que é dor
.
Eu que era fiel
Feito um cão adestrado
Vivo em lamentações
E arrependimentos
De um passado glorioso
Que caiu no esquecimento
E assim fui esquecido
Por ela que já não vive
Pra recordar nossos momentos
.
Peço a São Sebastião
São Jorge, Santa Rita
Santo Antonio, São José
São Pedro e Aparecida
Pra que faça um milagre
E dissipe minha tristeza
Que eu cure o meu luto
Que eu volte a ver beleza
- E você? Existe?
Seu caso não tinha jeito. Davi jazia perpetuo na lembrança viva e morta de sua própria consciência. Mais ou menos o que fazia antes da pedra com coisas que preferia esquecer. Não esquecia, de fato. Mas apagava, ilusoriamente, de sua mente. Nem todos têm a mesma sorte de Davi com uma pedra real que vai jorrar sangue pra renascer. Pedras metafóricas causam um estrago muito maior. Estão atreladas a inúmeras partículas de existência que buraco nenhum consegue absorver. Igual a todas as vezes que somos obrigados a construir uma estrada de asfalto pra continuar andando na rua de chão. Sim! Davi caiu involuntariamente. E involuntariamente era o seu coração, que com o cérebro delimitado continuava a bater afoito por alguém, sem ao menos saber quem. Ausente de gênero ou qualquer construção. Mas não batia em vão. E a prova estava presa na porta da geladeira, feito um mausoléu num cemitério pregando um epitáfio desconhecido, mas que causa tamanho deslumbramento quando se percebe que o morto é centenário e as palavras permanecem. E permaneciam, ecoando na mente vazia de Davi, que implorava por um preenchimento pra acabar de vez com o eco que não silenciava.
E inúmeros telefonemas, batidas de porta e encontros ocasionais com estranhos conhecidos. Ora, Davi recuperou a vida e chegou à morte. Conseguiu se adaptar ao auto-redescobrimento, ainda que forçado. Ainda que esperançoso. Ainda que receoso de encontrar mais um Davi na multidão. Não desejava ser como os outros. E não era. A pedra no meio do caminho era empírica. Mas o eco nunca silenciou na sua cabeça. E não silenciaria, mesmo se não tivesse tropeçado. Só adquiriu outra forma. Corações vagabundos que querem guardar o mundo em si não têm cura. E não sobra Ricardo pra contar a história.


